Ozempic e a Retina: afinal, o tratamento ajuda ou atrapalha a visão?

Os agonistas do receptor GLP-1, conhecidos comercialmente por nomes como Ozempic, Trulicity e Victoza, tornaram-se os protagonistas no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Seus benefícios metabólicos e cardiovasculares são indiscutíveis. No entanto, no consultório de retina, uma pergunta tem surgido com frequência crescente: será que essas “canetas milagrosas” podem prejudicar os olhos?

A resposta não é um simples “sim” ou “não”, mas sim um alerta sobre como a velocidade da melhora do diabetes pode impactar a saúde ocular.

O Efeito Paradoxal: quando o “muito rápido” preocupa

A relação entre esses medicamentos e a Retinopatia Diabética (RD) é complexa. Por um lado, o controle rigoroso da glicemia é o maior aliado da visão a longo prazo. Por outro, estudos mostram que uma redução drástica e súbita nos níveis de açúcar no sangue (glicose) pode causar o que chamamos de “fenômeno de piora precoce”.

Basicamente, a retina, que já estava adaptada a níveis altos de glicose, sofre um estresse com a mudança rápida no ambiente metabólico. Esse efeito paradoxal pode levar ao agravamento temporário de uma retinopatia preexistente ou ao surgimento de edema macular.

O que a ciência nos diz hoje?

O Alerta do SUSTAIN-6: este estudo importante associou o uso da semaglutida a um aumento inicial no risco de complicações oftálmicas, especialmente em pacientes que já possuíam retinopatia diabética avançada.

Dados Recentes (2025): um estudo de farmacovigilância global publicado no American Journal of Ophthalmology reforçou a necessidade de vigilância, apontando um aumento nas notificações de casos de retinopatia e neuropatia óptica isquêmica associados ao início do tratamento com semaglutida.

Diferença entre as Drogas: curiosamente, meta-análises indicam que, enquanto algumas drogas como a albiglutida podem aumentar o risco no estágio inicial, elas reduzem o risco de progressão para estágios graves no futuro.

Então, o medicamento deve ser evitado?

A resposta é: não. Conforme destacado pela Cleveland Clinic, esses medicamentos são ferramentas valiosas para a saúde sistêmica do paciente. O ponto crucial não é evitar a medicação, mas sim garantir que o paciente não a utilize sem um escudo de proteção oftalmológica.

Minhas recomendações para pacientes em uso de GLP-1:

Para garantir que o tratamento ajude o seu corpo sem atrapalhar os seus olhos, siga estas diretrizes:

1. Exame de “Base”: antes de aplicar a primeira dose, é essencial uma avaliação detalhada da retina para saber se já existe doença ativa.

2. Vigilância Rigorosa: se você já tem retinopatia, o monitoramento deve ser intensificado nos primeiros meses de tratamento. O cérebro e o corpo precisam de tempo para se ajustar à nova glicemia.

3. Comunicação entre Especialistas: Endocrinologista e Oftalmologista devem trabalhar juntos. Se a redução da Hemoglobina Glicada ($HbA1c$) for muito rápida, o acompanhamento da retina deve ser mensal ou trimestral.

4. Aguardando o Estudo FOCUS: em breve, teremos resultados ainda mais definitivos sobre o impacto direto desses fármacos na progressão da RD, trazendo mais segurança para as nossas condutas.

Conclusão

O tratamento com agonistas do GLP-1 ajuda a proteger a visão no longo prazo, mas pode atrapalhar no curto prazo se não houver acompanhamento especializado. O segredo da preservação visual no paciente diabético é a vigilância ativa.

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