Como especialista em retina e vítreo, acompanho de perto o impacto que a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) na forma seca, também conhecida como atrofia geográfica (GA). Ela é, hoje, a principal causa de cegueira central irreversível em idosos acima de 65 anos.
A perda da visão central é uma das experiências mais debilitantes que alguém pode enfrentar na terceira idade. Atividades que antes eram automáticas, como ler, dirigir, reconhecer o rosto de um familiar ou até mesmo ver o próprio reflexo no espelho, tornam-se subitamente impossíveis. No entanto, um marco histórico na medicina ocular acaba de ser publicado, trazendo uma nova luz para esses pacientes.
O estudo PRIMAvera: um marco histórico
No dia 20 de outubro de 2025, o prestigioso New England Journal of Medicine (NEJM) publicou os resultados do estudo PRIMAvera. Liderado pelo renomado Moorfields Eye Hospital (Londres) e pela Universidade de Bonn, este ensaio multicêntrico foi realizado em centros de excelência no Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Holanda.
Os dados confirmam o que esperávamos: o implante de retina sem fio PRIMA não é apenas uma promessa, mas uma realidade clínica com resultados comprovados:
84% dos pacientes voltaram a ler após o procedimento e a reabilitação.
81% apresentaram uma melhora clinicamente significativa na acuidade visual.
Como funciona o Implante PRIMA?
O sistema funciona como uma “ponte” para a visão perdida. Um microchip fotovoltaico de apenas 2 mm² é implantado sob a retina. Ele trabalha em conjunto com óculos inteligentes que captam a imagem e a projetam de volta ao olho por meio de luz infravermelha. O chip converte essa luz em impulsos elétricos que ativam as células remanescentes da retina, enviando o sinal ao cérebro para que ele reconstrua a imagem central.
O Caminho para a Disponibilidade: do mundo para o Brasil
Embora os resultados sejam brilhantes, é importante entender o cronograma de disponibilidade desta tecnologia:
Europa: O dispositivo está em fase final de validação e a aprovação regulatória é estimada para 2026. No Reino Unido, a expectativa é que ele seja integrado ao NHS (sistema público de saúde) até 2027.
Estados Unidos: A FDA já concedeu ao implante o status de Breakthrough Device (Dispositivo Inovador), o que acelera significativamente o processo de análise e aprovação.
Brasil e América Latina: Por aqui, a chegada da tecnologia depende da aprovação da Anvisa. Historicamente, essa validação ocorre após a consolidação em mercados maiores, o que nos coloca em um horizonte de expectativa para os próximos anos.
Uma nova era na Oftalmologia
Até pouco tempo, o diagnóstico de atrofia geográfica avançada significava aceitar a perda da visão central. Hoje, com os avanços das neuropróteses visuais inteligentes, estamos presenciando o início de uma era onde a cegueira central pode ser revertida.
Como médica, meu compromisso é seguir monitorando cada passo dessas aprovações regulatórias para oferecer aos meus pacientes o que há de mais avançado e seguro na ciência mundial. A esperança de voltar a enxergar detalhes e recuperar a independência nunca esteve tão próxima.
